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domingo, 22 de junho de 2008

Epicurismo e Estoicismo

HELENÍSTICA


Uma ótima oportunidade de confirmar o valor de verdade da expressão “historicidade da filosofia”, é tomar contato com o período de transição da filosofia antiga e clássica grega para o pensamento filosófico da época helenística. Podemos constatar o quanto o ambiente humano cultural pode participar da construção dos modelos de verdade, para que nele o homem se apóie, dando segurança e sentido à sua própria existência. O movimento do pensamento é auto-gerador. Na mesma proporção que gera alteração no ambiente cultural mais amplo, recebe de volta o motivo da auto-reflexão e reformula novamente o sentido para seu mundo físico e espiritual. Fluxo e refluxo que pulsa a energia humana gerando o movimento histórico-cultural do qual a filosofia participa como a ferramenta eficiente e, no mundo a partir dos pré-socráticos,mais necessária.

O grande evento histórico da transformação ocorrida na grécia clássica e que marca a transição para a época helenística foi a expedição de Alexandre Magno no período de 334 a 323 a.C. Foram radicais mudanças em todo o espírito do mundo grego por desfazerem uma das maiores realizações, não só entre os gregos mas, de toda a humanidade: a criação e o estabelecimento da Polis como o espaço público para o exercício da cidadania, na qual o homem livre cumpria sua obrigação de decidir os rumos do seu estado. Como para o grego da época clássica sua vida privada se confundia com sua condição de cidadão, a totalidade de sua existência transcorria no exercício da cidadania; na pólis. Toda a construção de um ideal se desfazia sob um outro que se impunha pela força. As antigas concepções, fundamentais para o antigo modelo de vida, alicerçada na espiritualidade da moral refletida pela ética, que culminava no pensamento de Platão e Aristóteles, desaparecia deixando em seu lugar o vazio que o novo habitante, já nem tanto cidadão, deveria preecher.

As novas monarquias helenísticas, nascidas da dissolução do império de Alexandre, são instáveis; mas as mudanças ocorridas com a perda de importância da pólis, não causaram reações por parte dos indivíduos sob o novo regime. Não houve uma troca de instituições e, aos gregos de agora, o status de súdito substitue o de cidadão no sentido clássico. Seu querer está ausente dos interesses do estado e as novas virtudes são de ordem técnica, desenvolvida por habilidades específicas profissionais e não de conteúdos éticos das virtudes civis do passado. A administração pública foi profissionalizada e emprega o funcionário, o soldado ou o mercenário. Entre o funcionário público e o técnico está aquele que não estando numa posição, nem noutra, vive uma atitude de desinteresse e até de aversão pelas coisas do estado.

Assim, por necessidade, novos pensamentos despontam do novo meio para repor o homem em um novo trajeto traçado por ele mesmo. As novas filosofias vão refletir as novas condições de existência pondo o estado e a política entre as coisas indiferentes e até evitáveis.

Em 146 a.C.; a grécia torna-se uma província romana. O pensamento grego volta-se para o ideal de cosmopolitismo abandonando definitivamente sua relação com a pólis. Sem a pólis onde se praticava a democracia, o novo homem se descobre como indivíduo. A nova identidade tráz ao indivíduo sua pŕopria forma de moldar seu perfil moral, com a implicação que isso pode trazer num regime individualista. Os excessos pelo egoísmo são o fruto da separação entre a ética e a política.

É interessante notar que, entre os gregos, até em Aristóteles sobreviveu a idéia de denominação de bárbaros para os estrangeiros. Considerados incapazes de cultura, eram julgados inferiores e sem qualificações para atividades livres. Mas na difusão da cultura grega por outros povos e raças a cultura “helênica” torna-se “helenística”; o contato com outras culturas, como é sempre observável, traz assimilações de elementos externos para a cultura helênica. Esse movimento de assimilação cultural vai participar muito intimamente das novas formulações filosóficas, surgindo o fenômeno do ecletismo. No contato com a diversidade cultural dos vários povos, percebe-se o que existe de comum a todos: o problema moral. Grandes respostas aos problemas humanos serão criadas nessa época e se tornarão paradigmas espirituais da humanidade para sempre. Entre as escolas dessa fase da história da filosofia estão o Epicurismo e o Estoicismo.



EPICURISMO


O epicurismo foi uma das respostas dadas pelas escolas filosóficas, ao momento histórico em que vivia a grécia da época helenística. A primeira em ordem cronológica, surgiu em Atenas por volta do fim do século IV a.C. Seu fundador, Epicuro, nasceu em Samos em 341 a.C. Tendo ensinado em Cólofon, Mitilene e Lâmpsaco transferiu sua escola para Atenas. Os sucessores de Platão na Academia e de Aristóteles no Liceu, estavam deturpando os ensinamentos de seus mestres, oque não passou despercebido por Epicuro, que sabia ter algo novo pra dizer. Embora o passado de importância das escolas de Platão e Aristóteles estavam próximas no tempo, estavam distantes do espírito dos novos eventos. Uma possibilidade de revolução espiritual para Epicuro.

A novidade revolucionária, que acompanhava o pensamento de Epicuro, começava pelo espaço dedicado à escola: um prédio com um jardim nos subúrbios de Atenas. Longe do barulho da cidade, o silêncio do campo se adequava melhor à mensagem do filósofo.


Proposições gerais do filósofo do jardim:

a) A realidade é perfeitamente penetrável e cognoscível pela inteligência do homem.

b) Nas dimensões do real existe espaço para a felicidade do homem.

c) A felicidade é falta de dor e perturbação.

d) Para atingir essa paz e esse felicidade, o homem só precisa de si mesmo.
e) Não lhe servem absolutamente a cidade, as instituições, a nobresa, as riquezas, todas as coisas e nem mesmo os deuses: o homem é perfeitamente “autárquico”.

Como escreve Giovanni Reale: “no contexto desta mensagem, todos os homens são iguais, porque todos aspiram à paz de espírito, todos têm direito a ela e todos podem atingi-la, se quiserem”. Em consequência disso,para nobres ou não, livres ou não, homens ou mulheres e até prostitutas em busca de redenção, os jardins estão de portas abertas.

O movimento epicurista não era de cunho intelectualista mas, um modo de vida fundamentado na razão. À partir dos jardins, irradiava um movimento comparado ao missionário pois, a casa funcionava como um centro de propaganda da filosofia epicúreia.

Se movermos o movimento do epicurismo para o campo da fé, poderemos dizer que a fé epicúreia é uma fé ligada à dimensão do mundo natural e físico, que nega toda transcendência, a metafísica da segunda navegação de Platão e todo desenvolvimento Aristotélico.

A tripartição da filosofia em “lógica”, “física” e ética” é adotada por Epicuro, em que a lógica estabelece as leis segundo as quais reconhecemos a verdade; a física estuda a constituição da realidade; a ética estuda a felicidade e os meios para alcançá-la. A existência das duas primeiras dá-se em função da terceira.

Para Epicuro os sentidos eram os “mensageiros do ser” e, só os sentidos podiam captar toda a verdade do ser de modo infalível. Temia que se descobrise uma única sensação metirosa, por tornar todas elas iguais. Apresentava os seguintes argumentos para a veracidade absoluta de todas as sensações:

1.A sensação é uma alteração e, em consequência, passiva; é produzida por alguma coisa da qual é o efeito correspondente e adequado.
2.A sensação é objetiva e verdadeira, porque é produzida e garantida pela própria estrutura atômica da realidade. As coisas emanam de si complexos de átomos que constituem “imagens ou simulacros”, as sensações são exatamente esses simulacros penetrando em nós.
3.A sensação é a-racional, incapaz de retirar ou acrescentar qualquer coisa a si mesma sendo, por isso, objetiva.

O segundo critério de verdade para Epicuro são as “prolépses”, “antecipações” ou “pré-noções”, as imagens mentais que as coisas deixam registradas nas mente, como memória da experiência com o objeto que é exterior. Na futura presença do objeto ou, até mesmo na sua ausência, a sensação participa com a impressaõ deixada em nossa mente por ocasião da primeira experiência; é a prolépse.

Prazer e dor são o terceiro critério de verdade pelas mesmas razões que são as sensações. Por ser critério de distinção entre ser e não-ser, verdadeiro e falso, é também critério de escolha entre bem e mal e, portanto, critério de ação ética.

A evidência imediata do valor de verdade pelas sensações, prolépses e sentimenos de prazer e dor, são possibilidades de exclusão de enganos pelos nosso sentidos por quê as sensações não podem nos enganar. As coisas não podem mostrar oque não têm, nem acrescentar ou retirar algo de si mesmas. Mas o raciocínio não pode ir direto ao ser porque é uma operação mediada pelos sentidos, assim pode ocorrer o engano da opinião que nasce dessa mediação.

Para distinguir as opiniões verdadeiras das falsas, Epicuro determina que são verdadeiras as opiniões que::

1.Recebem testemunho comprobatório, confirmado pela experiência e evidência.
2.Não recebem testemunho contrário, não recebem desmentido da experiência e da evidência.

São falsas as opinões que:

1.Recebem testemunho contrário.
2.Não rcebem testemunho probante.



A física epicúreia


Para Epicuro a evidência é o parâmetro de reconhecimento da verdade. Trata-se da evidência empírica do ser, e não como este aparece à razão. Mas essa evidência é insuficiente e inadequada para corroborar os conceitos básicos da física epicúreia. Átomos, vazio e queda dos corpos não são evidentes por si só, por não serem sensorialmente perceptíveis. Mas Epicuro tenta contornar o problema argumentando que essas coisas são opinadas e supostas para explicar os fenômenos por estarem de acordo com eles. Porém muitos outros fenômenos poderiam se beneficiar da falta de testemunhos contrários. A resposta não tem, pois, validade lógica.

Diz Epicuro: “Se não nos perturbasse o pavor dos fenômenos celeste e da morte, algo que nos toca de perto, e se não perturbasse o desconhecimento dos limites dos prazeres e das dores, não teríamos necessidade da ciência da natureza”. Essa visão do objetivo das ciências naturais estabelece a necessidade da fundamentação da ética. Essa é a finalidade da física. Epicuro procura uma visão geral da realidade e seus princípios. Não cria uma nova ontologia. Busca nos pré-socráticos as figuras teoréticas necessárias à sua proposta materislista.

A Física epicúreia se fundamenta em:

a) “Nada nasce no não-ser”; pois tudo poderia gerar-se à partir do nada. “Nada se dissolve no nada”; pois tudo poderia se reduzir ao nada, As duas proposições negadas seriam um absurdo.

b) A totalidade da realidade é constituída essencialmente por dois componentes: os corpos e o vazio. A existência dos corpos é provada pelos próprios sentidos. O espaço é intuído à partir dos corpos. O espaço não é um absoluto não-ser mas, propriamente “espaço”. Nada existe fora das duas possibilidades.

c) Opondo-se a Platão e Aristóteles, Epicuro concebe a realidade como infinita. Totalidade infinita de corpos e vazio.

d) Alguns corpos são compostos, outros são simples e indivisíveis. A solução atômica é necessária, pois do contrário, levaria à admissão da divisibilidade dos corpos ao infinito e à dissolução ao não-ser que para Epicuro é uma absurdo.


Difrerenças entre as concepções de átomos dos antigos atomistas e Epicuro:

1.Na concepção dos antigos as cracterísticads fundamentais do átomo eram a “figura”, a “ ordem” e a “posição”. Para Epicuro as características são a “figura”, o “peso” e a grandeza”. As diferentes formas atômicas explicam as diversas qualidades fenomênicas. A grandeza dos átomos também participam na diversidade.

2.Para Epicuro todos os átomos são indivisíveis física e ontologicamente. No entanto, pelo fato de serem corpos dotados de figura, portanto de extensão e grandezas diversas, implicam que eles tenham partes. Mas não são partes separáveis entre si ontologicamente, mas lógica e idealmente por serem indivisíveis. Mesmo a grandeza das partes atômicas são limitadamente redutíveis para não contrariarem o princípio da redução ao nada. A esse limite de redutibilidade Epicuro chama de “mínimo”, que é a unidade de medida do átomo, do espaço, do tempo, do movimento e da queda dos corpos. Unidade de medida analógica.

3.A terceira diferença do modelo atômico epicúreio é em relação ao movimento e exige imaginação para visualiza-lo. Esse movimento se dá de cima para baixo; um movimento de queda no infinito devido ao peso dos átomos, sem que a diferença de peso implique na velocidade que se equipara à do pensamento. Epicuro introduz a teoria da declinação dos átomos ( clinámem) para explicar que os átomos podem se desviar a qualquer momento e em qualquer ponto do espaço para encontrar outros átomos.


Epicuro precisa ajustar toda sua proposta de forma que não fira o conceito de liberdade. No mundo materialista anterior, tudo era definitivamente estabelecido pela necessidade unversal. Mas num mundo onde se pretende que a vontade humana deva ser dirigida pela ética e a moral, a teoria do destino não pode se firmar. Não há lugar para tamanha contradição por serem excludentes. Se há uma, não pode existir a outra. Mas no mundo moral de Epicuro o sábio se faz na liberdade da vontade própria. Mas a contradição em Epicuro não está ausente de todo. A queda dos átomos nesta teoria, sugere que eles são gerados no não-ser, oque contradiz a base da filosofia epicúreia, que predica que, “do nada,nada procede”. Logo o mundo físico de Epicuro é um mundo de casualidade, pois não está vinculado a leis; e a liberdade só pode ser encontrada no mundo superior do espiritual e não no mundo físico.

Existe infinitos mundos pois, infinitos são os princípios atômicos. Nessa infinidade de mundos há mundos iguais e diferentes deste nosso. Essa infinidade de mundos acontece na infinidade dos tempos infinitos. Todos nascem e dissolvem-se lenta ou rapidamente. Como são infinitas as possibilidades neste munfo infinito, todas elas são presentes e o mundo em si, permanece sempre o mesmo com todos os seus componentes. Mas nenhuma inteligência ou finalidade está presente neste configuração do universo, pois o mesmo é o resultado do fenômeno do clinámen, fortuito e casual.

A alma é um agregado de átomos. Esses são em parte ígneos, aeriformes e ventosos que constituem a parte irracional e lógica da alma, a outra parte é de átomos diversos, sem nome específico e constituem a parte racional. A alma não é eterna, mas mortal. Consequência do materialismo do sistema.

Para Epicuro os deuses são reais, mas não se ocupam dos homens. Vivem nos “intermundos”, falam uma língua parecida ao grego, que é língua de sábios. São numerosos e transcorrem a vida em alegria, nutridos por suas sabedorias e companhias. Para o filósofo, os conhecimento que temos dos deuses é evidente e incontestável, possuído por todos, em todos os tempos e lugares e, produzidos por eflúvios e simulacros que provêm deles como conhecimento objetivo.

Na filosofia epicúreia há problemas sem solução lógica. As dificuldades estão nas bases dessa proposição filosófica. Para Epicuro existem os corpos e o vazio mas, os deuses, que são imortais, não podem estar sujeitos à corrupção dos corpos e, no entanto, não podem também pertencer ao não-ser, que em Epicuro é o vazio propriamente. A solução está em pôr os deuses numa situação média entre as duas possibilidades. Os deuses passam a ser “quase corpos” e “quase almas”. É uma solução precária, para justificar o materialismo da teoria. O estatuto diferenciado dos deuses leva em consideração a condição especial da quase matéria dos compostos dos deuses. Epicuro justifica a condição imortal divina como o movimento eterno dos eflúvios nos deuses. Assim os “átomos”especiais que “preenchem” o “campo” ou simulacro de um deus são eternamente substituídos por outros. Isso de forma alguma contorna o problema e, muito menos o resolve.


A ética epicuréia


Para Epicuro, se não há intermediários entre os corpos e o vazio, o bem deve ser, necessariamente, material. O pazer está entre as duas extremidades de uma escala de excessos: entre a dor e a euforia; na quietude. As dores psíquicas são superiores às físicas pois, mais duráveis nas ressonâncias interiores. Entre a (aponia) dor no corpo e a (ataraxia) perturbação da alma, está o verdadeiro bem, que deve ser buscado pelo homem. A natureza é o bem imediato a ele e, é nela que ele deve encontrar o seu bem, que é o seu prazer. Esta é uma opção refletida pela razão humana que se apóia numa ética racional e exige a liberdade da açaõ verdadeiramente moral. As antecedências do prazer epicúreio, no caminho de busca do bem, são uma vida exercida sob os princípios do comedimento. O prazer não está nas festas orgiásticas e nos excessos de todo tipo mas, na sobriedade que perscruta as consequências de cada ação e decide pela melhor escolha. A melhor escolha é a que expulsa as falsas opiniões que levam ao sofrimento da alma; não elege o gozo em detrimento da sabedoria que evita a dor. Portanto mais que na liberdade, está na responsabilidade de guiar a vontade para atingir o bem.


Para atingir a aponia e a ataraxia Epicuro distingue:

1.Prazeres naturais e necessários.
- entre esses prazeres estão incluídos apenas aqueles que são nescessários à conservação da vida, que são os únicos verdadeiramente válidos. Incluem-se neles: comer quasndo se tem fome, beber quando se tem sede e, repousar quando se está cansado.O desejo e o prazer do amor são fontes de perturbação da alma e portanto, estaõ fora do grupo.

2.Prazeres naturais e não necessários.
- neste grupo se encontram as variações supérfluas dos prazeres que conservam a vida como:comer bem, beber com refinamento, vestir-se com elegância etc.

3.Prazeres não naturais e não necessários.
- neste grupo se encontram os prazeres que são totalmente dispensáveis às nescessidades da conservação da vida como riqueza, poder, honra etc.

Os prazeres do primeiro grupo são os únicos que podem ser satisfeitos, pois têm por natureza um preciso limite e consiste na eliminação da dor. Os do segundo grupo consistem no grau de prazer que podem oferecer e justamente por isso, podem causar danos e dor. Os do terceiro grupo são totalmente dispensáveis para a vida e outra coisa não oferecem que não seja a dependência e a dor psicológica. Toda a necessidade humana está em satisfazer a dor imediata que causa a fome, a sede e a falta de abrigo. A felicidade pois, está em refrearmos nossos apetites e desejos do supérfluos dispensáveis porque bastamos-nos a nós mesmos e nisso se encontra a maior riqueza e felicidade.


Os males:

Físicos – se são leves, são suportáveis e não interferam de todo em nossa possibilidade de felicidade. Se é agudo, passa logo. Se é agudíssimo, conduz logo à morte, o que elimina toda a dor.

Psíquicos – são erros e produtos de opiniões falazes da mente. A observância de uma vida nos princípios da moral epicuréia é o remédio para os males da alma.

Morte – a morte só é um mal quando nutrimos falsas opiniões sobre ela.A morte não é mais que a dissolução dos compostos alma e corpo. Os compostos físicos se degradam no ambiente e toda consciência cessa, não restando nada do homem. Não restando nada do homem, nada pode estar no seu além, assim nenhuma expectativa é legítima. Nada a vida leva do homem, pois nada ele teve de eterno e nem ele é eterno.



Política


A política nada trás ao homem que não seja dor para alma, através das ilusões de riqueza e poder. É no cárcere dos desejos e das ambições que o homem aprisiona sua vida quando se submete à política e compromete a aponia e a ataraxia. O bem não está na coroa real mas, na ausência das perturbações e dores que o homem pode e deve evitar, se retirando para dentro de si mesmo.

A justiça deve ser um valor útil para Epicuro. O estado,agora tutor dos valores vitais, não deve existir senão em função da sua utilidade para a vida comum. Portanto não tem um valor absoluto e não é mais o que fora no passado em que o homem não se separava da sua condição de cidadão. Sua interpretação para a lei, justiça e direito, está em antítese com a filosofia clássica grega e as teses de Platão e Aristóteles em que o estado era guardião dos valores morais.
A Amizade encontra em Epicuro seu justificador. O único laço admitido entre os homens é a amizade. Laço livre que unem pessoas com interesses e objetivos comuns. Na amizade o indivíduo encontra seu outro eu, igual a si mesmo, e se encontra. “ De todas as coisas que a sabedoria busca, em vista de uma vida feliz, o maior bem é a amizade”; “A amizade anda pela terra anunciando a todos que devemos acordar para dar alegria uns aos outros”.



Os quatro remédios e o ideal do sábio


1.São vãos os temores em relação aos deuses e ao além.

2.O pavor em relação à morte é absurdo, pois ela não é nada.

3.Se entendemos corretamente o prazer, ele está à disposição de todos.

4.O mal dura pouco ou é facilmente suportável.

Epicuro mostrou aos homens do seu tempo, necessitados pelas condições gerais históricas, que é possível encontrar a felicidade. Que ela deve ser buscada onde pode ser encontrada: no interior da própria pessoa. Para aquele tempo ou para esse, Epicuro mostrou uma resposta que não deve ser ignorada. A razão pode e deve ser uma ferramenta de construção da felicidade.




ESTOICISMO



Zenaõ, nascido em Cítio, na ilha de Chipre por volta de 333 a.C. É o fundador da mais famosa escola da época helenística no fim do século IV a.C. em Atenas. Conhecida como Estoá ou “Jardim”, por ocupar um pórtico pois, Zenão não era cidadão ateniense e não podia portanto, ter propriedades em atenas. Seus seguidores foram chamados de “os da Estoá”, “os do Pórtico” ou de “Estóicos”.

Conhecia os antigos físicos e absorveu conceitos de Heráclito. Para Zenão a filosofia era a “arte de viver”, como em Epicuro. Fundamentava-se num universal materialismo e dispensava qualquer transcendência. Mas embora compartilhasse alguns conceitos com Epicuro, não aceitava algumas soluções epicúreias. Tornando-se um ferrenho opositor dos dogmas da escola. Não aceitava por exemplo, a redução do mundo material, incluindo nele o homem, a um modelo acásico de concentração de matéria, nem a idéia da redução do bem ao prazer. Foi, juntamente com sua escola, quem derrubou muitas teses epicuristas. Apesar das diferenças, as duas escolas se moviam no mesmo plano de negação da transcendência e não em planos filosóficos diferentes. Admitia a discussaõ crítica dos dogmas dos fundadores e isso promoveu considerável evolução nas escola; ao contrário do ocorrido na escola epicuréia.

São identificados três períodos na história da Estoá:

1.“Antiga Estoá” - fins do século IV a todo o século III a.C. No qual a filosofia da escola foi desenvolvida e sistematizada pela tríade: Zenaõ, Cleato de Assos e Crísipo de Solis, o qual, fixou a doutrina deste primeiro estágio da escola.

2.“Média Estoá” - Desenvolve-se entre o século II e I a.C. E se cracteriza por infiltração eclética na doutrina.

3.“Nova Estoá” - conhecida também por Estoá romana, já na era cristã, na qual a doutrina faz-se essencialmente meditação moral com tons religiosos, acompanhando o espírito dos novos tempos.



A lógica estóica



Tanto o fundador, como sua escola, aceitam a tripartição da filosofia estabelecida pela Academia. Comparam-na a um pomar, no qual a lógica é o muro que o circunda, representando sua delimitação e defesa. As árvores, sendo a razão de sua existência, e como que sua estrutura, representam a física. Os frutos são a finalidade do conjunto e representam a ética. A lógica e a física existem para a ética.

Como em epicuro, os estóicos concebem que à lógica compete o fornecimento do critério de verdade. A sensação, que é impressão dos objetos impressa em nossos órgãos sensoriais, é a base do conhecimento. As sensações, transmitidas pelos órgãos à alma, gera nela a representação. Mas nossa alma, através do logos que a habita, deve “assentir” e não apenas sentir a representação. A representação não é uma escolha voluntária porém, uma ação independente da coisa sobre nossos sentidos. No entanto, estamos livres para tomar posição diante das impressões e representações, dando-lhes ou não, assentimento (synkatáthesis) do nosso logos. Só quando damos nosso assentimento é que temos a apreensão ( katálepsis). A apreensão que recebe nosso assentimento é “ representação compreensiva ou catalética”, sendo o único critério ou garantia de verdade.

Para os estóicos o logos teria uma certa autonomia em relação às sensações. E a representação catalética seria um reconhecimento pelo logos da evidência e realidade do objeto pelas sensações. Mas a liberdade de assentimento é apenas um reconhecimento do espírito sobre o objeto e sua opção pelo sim ou pelo não à sua evidência objetiva. Ainda nesta direção do pensamento estóico, o objeto através da representação catalética, exerce uma ação material e corpórea sobre nossa alma; por sua vez, a mesma ação é exercida pela alma sobre o objeto. Disso resulta que a própria verdade seria material. Mas os estóicos admitem que passaríamos da representação catalética para a formulação de conceitual, à intelecção. O ser no estoicismo é corpóreo e individual mas, como o universo não pode ser corpóreo, então é incorpóreo no sentido de realidade vazia de ser.



A física estóica



No estoicismo antigo a física é uma forma de materialismo monista e panteista. O ser é aquilo que tem capacidade de agir e de sofrer. Ser e corpo são idênticos. As virtudes, os vícios, o bem e a verdade também são corpóreos.

No universo há dois princípios: um passivo e outro ativo. Matéria e forma, ou propriamente um princípio enformante. São princípios inseparáveis. O princípio enformante é ativo, é a Razão divina, o Logos ou Deus. A matéria é a substância sem qualidade. Deus eterno é o princípio que penetra toda realidade sendo inteligência, alma e natureza.

O “fogo artífice” é identificado com o Deus-physis-logos, com o heracliano “raio que tudo governa” ou o pneuma, que é “sopro ardente”, ar dotado de calor. O fogo sendo o princípio que tudo penetra, é o calor imprescindível de todo nascimento, crescimento e toda forma de vida. Deus (corpóreo), penetra toda realidade( corpórea), através do dogma da “mescla total dos corpos”. Admitem a divisibilidade dos corpos ao infinito, de modo que seja possível dois corpos fundirem-se num só. Tese que coincide com a penetrabilidade dos corpos.

As razões seminais são as razões do logos, considerado como o sêmem de todas as coisas, formados pelos logói spermatokói. Todas as razões vêm de Deus, fogo artífice, que procede a geração do cosmo e possui todas as razões seminais que gera todas as coisas, segundo o fado divino. O Logos é único e opera no interior de tudo como sêmens criativos e força germinativa no interior da matéria. O universo é um único organismo em que todas as partes se harmonizam entre si e com o todo. Teoria da “simpatia” universal. Sendo a matéria inseparável da forma e, sendo Deus o princípio ativo na matéria, Deus está em tudo e é tudo. Deus é o cosmos.

Se tudo é produzido pelo princípio imanente do Logos que é divino. Tudo é racional e é como deve ser e não pode ser de outra forma. O conjunto é perfeito e não pode deixar de sê-lo. As coisas, em si mesmas imperfeitas, estão no conjunto perfeito. A (Pronoia) providência estóica, devido ao finalismo universal, faz com que cada coisa seja como deve ser. Essa providência coincide com o artífice imanente, a alma do mundo. Essa idéia leva a previdência estóica à Necessidade, Fado, Destino do mundo. Mas os estóicos entendiam esse destino como ordem irreversível, natural e necessária de todas as coisas. Necessidade segundo a razão. Como o logos é imanente, tudo é necessário e também perfeito. Ao contrário de Epicuro, os estóicos concebem tudo como necessário. Diante de toda causa definida e definitiva do mundo a liberdade se torna possível ajustando-se ao que é necessário. Se tudo é racional, perfeito e necessário, o melhor para a liberdade humana é adequar-se ao logos imanente ao mundo.



A ética do estoicismo



A mais significativa produção filosofica dos estóicos está no campo da ética. Por mais de quinhentos anos o mundo soube ouvir a mensagem eficaz do estoicismo. Para a escola, como para o epicurismo, a felicidade está em viver segundo os princípios da natureza. A observação dos seres vivos nos mostra que todos tendem a auto-conservação; evitando o que é contrário à sua sobrevivência e assimilando o favorável à sua conservação. Ação inconsciente nos vegetais e plantas, impulsivo e instintivo nos animais, e consciente no homem, no qual interfere a racionalidade. Desse princípio, deve ser deduzida a ética. O viver uma vida ética para o homem é um viver conciliado com a natureza, a qual porta o logos divino, imanente à toda matéria. Portanto o viver humano é um viver conciliado com a razão plena.

Posto que toda vida persegue o melhor para si mesma, considerando sua auto-conservação,e isto é originalmente primário no ser vivo, “bem é aquilo que conserva e incrementa nosso ser e,ao contrário, “mal”aquilo que o danifica e o diminui”. Como o homem se diferencia dos outros animais por manifestar-se nele o logos, há nele duas conservações a serem realizadas: uma promove e incrementa a vida animal e outra conserva e promove a vida racional. Para o homem só a virtude é o bem moral por que incrementa o logos e o mal aquilo que lhe causa danos. As coisas relativas ao corpo saõ consideradas indiferentes.

O Homem é impulsionado pela natureza a conservar o próprio ser e amar a si mesmo. Este impulso é direcionando para além de si mesmo e atinge sua família e a sociedade toda. A natureza impulsiona o indivíduo a se relacionar e ser útil aos outros. Saindo de sua exclusiva interioridade na lei epicuréia o homem no estoicismo encontra a comunidade e nela, a possibilidade de realização da vida ética e a felicidade.

Colocaram, os estóicos, com base nos conceitos de physis e logos, em crise os antigos mitos da nobreza de sangue e da superioridade da raça, e a instituição da escravidão. Os novos conceitos de liberdade e escravidão ligam-se à sabedoria e a ignorância. Livre é o sábio, e escravo o tolo.

Cuidando de viver uma vida na retidão ética, o sábio evitará toda paixão. A felicidade é apatia e impassibilidade. A apatia é extrema nos estóicos e piedade,compaixão e misericórdia são coisas a evitar pois, são paixões. O estóico não tem diante da vida uma posição propriamente entusiasta como os epicuristas.

Silvino R dos Santos
Texto para trabalho de conclusão de disciplina

BIBLIOGRAFIA


REALE, Giovanni & ANTISERI, Dario. História Filosofia,da Antiguidade e idade média,São Paulo. Paulus.1990.

6 comentários:

DIARIO DE UMA GORDA disse...

Meu Deus! Que blog perfeito precisamos entrar em contato.
aylanecosta@hotmail.com
Adorei!

ALLmirante disse...

Muito apreciei a competente abordagem. Merece o retorno. Registro apenas uma ponderação: a admitir o desdobramento atômico e principalmente a simbiose corpo/alma, e não a dialética platônica, isso me representa um refute a priori do materialismo consagrador da obra platônica.

Wendel Cavalcante disse...

Muito bem construído o contexto histórico!

Aledro disse...

muito bem resumido do livro...

Adriana disse...

Atitudes estóicas na hora do sacrifício?
Tales de Mileto, o primeiro entre os grandes naturalistas – afirma-se que, através de cálculos, previu o eclipse solar do ano de 585 a.C. – era meio fenício e um dos clássicos da filosofia pré-socrática. Zênon de Cício, a estrela obscura da abóboda celeste pós-socrática, era, quase certamente, um fenício genuíno.
Ele era ridicularizado em Atenas devido às suas feições fenícias – parece que o antifenicismo foi um predecessor do anti-semitismo – desenvolveu uma doutrina cujos princípios fundamentais servem ainda hoje como marcos orientadores da ética e da moral: o estoicismo.
Segundo a sua doutrina, não existe nenhum deus palpável e pessoal, mas apenas um inatingível administrador da História e da natureza. Não faz sentido dirigir-lhe súplicas, também de nada adianta rebela-se contra ele – ele é o próprio fato impenetrável. Tomando por base a existência desse deus, o estóico conclui que não vale à pena viver de acordo com as regras divinas, mas tão-somente segundo as da razão. O estóico despreza os instintos e as paixões, recolhendo-se a um estado de esclarecimento desapaixonado. Nada esperando, não pode sofrer desilusões. Conseguindo conduzir sua vida dentro da mais extrema disciplina, ele sente-se obrigado a prestar sua ajuda aos que não o conseguem. O ideal estóico é inumano e de uma grandeza tão sinistra que nos faz suspeitar que atrás dele esconde-se aquele Baal que exige e espera que lhe sejam sacrificadas crianças, e que elas lhes sejam entregues com sorrisos nos lábios. Portanto, conhecia-se já a atitude estóica junto aos tofetes dos holocaustos? Gerhard Nebel pressente pelo menos “um elemento bárbaro no radicalismo com que foi elaborado e descrito o ideal de vida estóico, a existência do sábio”.
O próprio Zênon, à maneira fenícia, tirou as devidas conseqüências de sua doutrina ao dar fim à sua vida. Afirma-se que, com a idade de trinta e oito anos, ele foi jejuando até morrer.

Fonte: HERM, Gehard: O reino de púrpura da antiguidade: os fenícios. São Paulo : Melhoramentos, 1976. Série: O Homem e o Universo. Capítulo 16: Chegara a vez de Roma. Atitudes estóicas na hora do sacrifício? Página 291 e 292.

omar . r. silva disse...

adorei o artigo muinto revelador tive contatos com estes termos vendo filmes e a minha curiosidade agora foi sastisfeita meu nome e omar