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quinta-feira, 1 de maio de 2008

O Mito e a Transição para a Filosofia

O Nascimento da Filosofia



Para tentarmos compreender o nascimento da Filosofia na Grécia do final do século VII a.C e início do século VI a.C, é preciso que recuemos no tempo e tomemos contato com a forma anterior de explicação do mundo em sua forma espiritual e suas condições históricas e materiais na época. Como tudo tem sua anterioridade, não poderia ser diferente com esta forma racional e submetida a critérios rigorosos de explicação do mundo, das coisas do mundo e sua organização, que é a explicação filosófica.
A explicação anterior à da filosofia era a explicação mitológica, que satisfazia as necessidades pessoais e dos grupos humanos a respeito das origens de tudo o que existe e suas inter-relações. Porém, com as transformações ocorridas e as que ainda estavam em curso, a explicação mitológica era insuficiente e insatisfatória para as novas realidades observadas. Já não fazia sentido explicar o mundo e sua dinâmica com o modelo criado pela fantasia e sua causa dependente do humor e da vontade dos deuses. O Homem estava abrindo seus olhos para sua própria ação e reconhecendo as consequências de seus próprios atos. Começava a enxergar um futuro objetivo e assentado em suas ações, deliberadas pela sua própria vontade e implicando sua responsabilidade. Para isso tinha que tomar posse da construção desse mundo conquistando o conhecimento de sua dinâmica interna, adquirindo o domínio possível, da direção do seu movimento. A Grécia daquela época atingiu todas as condições necessárias para o surgimento dessa nova ciência, como eles denominavam o conhecimento: a Filosofia. Vejamos um rápido panorama dessas condições descritas pela história da filosofia antiga.




Condições espirituais



O Mito.

A Palavra mito tem origem no grego, mythos, que para eles, os gregos, significava a própria narração dirigida a um público que a recebia como verdadeira, pela confiança da qual era depositário o narrador. Este, um poeta-rapsodo, escolhido pelos deuses para receber e divulgar as verdades sagradas recebidas a respeito das origens de todas as coisas e de todos os seres. O relato poético era recitado em praça pública e tem para nós sua origem desconhecida pelo fato de prevalecer, na época mitológica, a consciência coletiva. Num ambiente onde prevalece o coletivo, o individuo tem uma consciência muito precária a respeito de si mesmo o que não gera necessidade egóica. Além disso a escrita era desconhecida e as epopéias recebiam as contribuições dos sentimentos dos poetas numa relação pessoal íntima com a tradição.
Como estamos comentando sobre o mito na Grécia antiga, não podemos deixar de mencionar o poeta grego Homero ao qual são atribuídos dois poemas: A Ilíada e Odisséia. Apesar de ter sua época e até mesmo sua existência discutida, a este personagem é creditada a participação ativa na educação grega pois, transmitiam valores da cultura grega através da narração da história e feitos de seus antepassados nos dois poemas citados.
O mito grego já está adiantado na direção da busca de causa e efeito, em relação a outros mitos em que só participam a fantasia e a imaginação; sendo considerado como pré-lógico. Mas ainda assim os deuses intervém nos acontecimentos naturais, sócio-culturais e pessoais do ser humano, estabelecendo o destino humano segundo suas intenções, conveniências, e relações políticas. O homem grego está preso a seu próprio destino pela decisão dos deuses. Tendo a forma humana e o comportamento afetados pelos humores típicos humanos, os deuses são humanizados e os homens divinizados. Numa hierarquia entre deuses e o homem comum há o herói logo acima deste. Possuindo a virtude manifestada na coragem e na força, o herói grego é homem para a batalha, mas também para a assembléia onde usa o poder de persuasão de seu discurso em benefício da coletividade.



Condições Histórico-Materiais


Viagens - Com os excedentes da produção grega provenientes da agricultura e do artesanato os gregos estabeleceram o comércio e, com isso, o contato com outros povos e outras culturas. Descobriram outros seres humanos iguais a si mesmos onde esperavam encontrar os seres fabulosos da fantasia. As diferenças culturais observadas como, outros sistemas mitológicos, outras formas de exercer a vida material e espiritual, permitiram aos gregos observar outras possibilidades de conduzir a vida, que não as suas próprias. Esses outros modelos observados impuseram aos gregos uma nova postura diante do novo: a postura de reflexão sobre sua forma de viver, comparando nas diferenças, vantagens e desvantagens e, permitiram a experimentação de elementos dessas outras culturas desmistificando assim a validade universal e necessária de sua cultura.

Calendário - O estabelecimento de um calendário fundamentado nos movimentos naturais dos astros, podendo calcular as estações do ano, os dias, as horas e suas subdivisões deram aos gregos um grande ganho de capacidade de abstração desmistificando o tempo. O homem não precisava aguardar a vontade dos deuses pois, o evento temporal chegaria segundo o previsto no calendário.
Moeda - A moeda como valor de troca é um objeto representativo de um valor em si mesmo. Não necessitando de relativizações ao intermediar valores de diferentes e ausentes objetos. Portanto, sua criação é uma conquista de liberdade e autonomia: o homem não precisa portar senão a própria moeda quando vai às compras.

Vida Urbana - O grande êxito obtido pelo comércio empreendido pelos gregos elevou economicamente a classe dos comerciantes a um nível de riqueza que a destacava das outras classes estabelecidas até então. Essa nova classe se impunha a garantia do estabelecimento do seu status social incluindo o poder político, o qual estava sendo conquistado pelo poder econômico em ascensão. A maneira que essa classe de comerciantes encontrou para ir suplantando o poder da aristocracia foi patrocinar as artes, as técnicas e o conhecimento. Esse ambiente foi determinante para o surgimento da filosofia.

Escrita - A palavra escrita é uma representação gráfica da representação sonora da coisa. Essa representação escrita, é uma abstração muito grande conquistada pelos gregos permitindo uma generalização até então nunca vista. Enquanto em outras escritas os sinais são representantes da coisa em si, na escrita silábica do alfabeto grego é possível suficiente abstração para comunicar a idéia de uma coisa e a especulação em torno dela. A escrita grega à disposição da coletividade e não de uma classe religiosa, como em outras escritas de outros povos e culturas, permite a normatização da própria especulação que é uma necessidade radical da filosofia.

Política - Do Grego pólis que originariamente significa “cidade organizada por leis e instituições”. A política é uma invenção grega que acompanha o espírito das transformações pelas quais a grécia passava. Todas as condições anteriores citadas são co-geradoras da nova forma de administração pública. Os poderes públicos e privados estão separados pela determinação dos cidadãos que, os mantém sob leis deliberadas com discussões e debates em assembléias públicas. Todos os atos públicos do estado subordinados à lei que expressa a vontade do cidadão da polis, dá a esse cidadão também a responsabilidade pelo destino da cidade e, por conseqüência, pelo seu próprio destino. A condução da política é a condução de seus próprios interesses ideais e materiais. A política grega é uma invenção de convivência em liberdade, com direitos e deveres do cidadão que a exerce; Convivência ética, porque crescentemente submetida à crítica racional e à liberdade da filosofia nascente.





Mito e Filosofia


Considerando como dois conhecimentos autênticos que são o mito e a filosofia, devemos admitir que são diferentes. Essa diferença não deve ser vista sob um julgamento de valor mas, uma constatação do conhecimento que adquirimos sobre as relações internas das coisas e entre as coisas. Sendo assim, o reconhecimento da autenticidade da mitologia como conhecimento é uma verificação da própria filosofia. A mitologia é um conhecimento válido,útil e funcional à uma comunidade ou um povo que vive sob seu domínio. Sendo um sistema fechado não busca fora de seu próprio universo sua validade. É um conhecimento dinâmico pois se transforma, ainda que lentamente, se adaptando às novas percepções do mundo natural e cultural. No entanto só uma crise pode abalá-lo, fazendo-o perder sua significação e efetiva realização das expectativas de um grupo humano. O mito não se separa da existência do indivíduo mas dá-lhe sentido, a integra ao todo cósmico e a realiza, tornando-a segura e desejável num mundo hostil.
É sobre este terreno fértil da mitologia grega, já modificada pelo espírito de busca do homem grego, em relação a outras mitologias orientais, que brota lentamente o germe da filosofia que ele carrega. As condições materiais, além das condições espirituais do ambiente fornecido por aquele sistema mitológico, é como a irrigação da semente filosófica que germina comparada a um milagre. Mas a Filosofia nasce por uma necessidade e uma imposição. A necessidade de se apropriar dos fins da própria energia dispensada na prática da vida, impunha uma atitude de busca do conhecimento das causas, para estabelecer os meios para o domínio da própria ação. A crise do mito remete o homem em busca de uma nova segurança e nesta busca o homem encontra a Filosofia.
As transformações vão surgindo lentamente, modificando o ambiente natural e cultural do homem grego; estabelecendo diferenças. Mas essas diferenças são relativas às duas formas, a mitológica e a filosófica, enquanto conhecimentos estabelecidos. Não podemos perder de vista que há uma transição e portanto, uma historicidade no movimento filosófico, para não nos levarmos ao engano de conceber que a filosofia tenha saído do nada.
Como duas formas diferentes de compreender a realidade podemos perceber as diferenças básicas entre mito e filosofia. O mito surge como verdade num processo vivo de compreensão da realidade. Nesse processo, a adesão ao mito se faz pela crença, enquanto na filosofia o critério racional rigoroso da lógica estabelece verdades e falsidades segundo o método, submetido à apreciação pública da argumentação e exigência de provas. A consciência mítica é a do grupo em que está imersa a consciência individual que não percebe a si mesma plenamente. Sob o mito, toda ação do destino humano está sob a vontade dos deuses. Sob o conhecimento racional da filosofia o homem se individualiza, trazendo para si mesmo a responsabilidade de seus próprios atos. O mito encontra suas respostas na relação sentimental com o mundo, a filosofia parte de um princípio e vai em busca das últimas conseqüências para conhecer a integralidade do ser. O mito é inseparável da fantasia; a filosofia, da razão. A fantasia cria os seres necessários ao sentido da existência, a filosofia busca as razões de existência dos seres conhecidos.
Com o surgimento da Filosofia o homem se apoderou mais e intensamente do mundo natural, transformando-o visivelmente através dos conhecimentos das coisas naturais. Com a separação entre a ciência e a filosofia no século XVII, promovida pela revolução metodológica iniciada por Galileu, as ciências particulares vão se definindo até o século XX, buscando suas autonomias. Mas à filosofia cabe a reflexão crítica sobre o conhecimento de cada ciência particular e o estabelecimento da unidade do conhecimento como modelo racional do mundo.
Nas palavras de Maria Lúcia de Arruda Aranha: A Filosofia “não vê apenas como é, mas como deveria ser. Julga o valor da ação, sai em busca do significado dela. Filosofar é dar sentido à experiência.”







Bibliografia

ARANHA, Maria L A & MARTINS, Maria H P. Filosofando;Introdução
à Filosofia. 2. ed. São Paulo. Editora Moderna.1993. 395p.

CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. 13. ed. São Paulo. Editora Ática.
2006. 424p.

REALE, Giovanni & ANTISERI, DARIO. História da Filosofia. Vol I.
São Paulo. Paulus. 1990. 693p.

Um comentário:

Fernando Neto disse...

Adorei essa explicação sobre Mito e Filosofia. É um texto curto, no entanto, consegue mostrar as principais diferenças entre essas duas formas de explicar o mundo!